As mulheres cantam

14 09 2008

Cotonou, 1o. de Julho de 2008.

Foi um dia difícil. Acordamos, tomamos um café da manhã simples e entramos todos na van. Mais ou menos umas 16 pessoas num veículo, três horas de viagem por ruas empoeiradas e vilarejos pobres sob um calor de mais de 35 graus. O destino, Zagnanado, um vilarejo no meio do nada. Um lugar onde as mudanças climáticas começaram a ser sentidas e enfrentadas pelos moradores com ações práticas e eficientes.

Mulheres de Zagnanado

veja o vídeo clicando no link acima

“Il n’y a plus de bois dans la nature” diz uma moradora (Não tem mais madeira na natureza), referindo-se a escassez de árvores nas matas e a falta de madeira para a utilização na cozinha. Mas ela dá a receita: “Ce pour ça qu’on plante des arbres”, diz ela, explicando por quê as mulheres de seu povoado resolveram sair plantando árvores. Nesta comunidade, há muito mais mulheres do que homens. Em uma mesma família, existem 30 mulheres e apenas cinco homens! O sexo feminino tem um papel muito importante na agricultura africana, elas são ligadas a fertilidade, por isso as mulheres são responsáveis pela coleta de água que ara os campos e pelo preparo da comida.

Mulher dá explicações aos jornalistas. Ao fundo, o forno ecológico.
Mulher dá explicações aos jornalistas. Ao fundo, o forno ecológico.

A busca por madeira e a percepção da escassez e destruição das árvores conscientizou as mulheres do povoado sobre a necessidade de replantio, além de trazer à tona soluções criativas para lidar com os problemas do clima. Com o apoio da ONG Organization des Femmes pour la Gestion de l’Energie du Bénin e suporte do World Food Program, essas mulheres criaram um forno de cozinhar que consome três vezes menos madeira e cozinha muito mais rápido do que o utilizado anteriormente.  O resultado é menos árvores abatidas e mais árvores plantadas. Entre as mulheres do grupo, algumas são encarregadas de passar a técnica adiante. A formação é gratuita.

Combústivel para a vida

No mesmo lugar, outro exemplo de criatividade. Dotan, uma comunidade que planta sementes e produz biocombústivel quer substituir a gasolina por causa da alta dos preços e do aquecimento global. O grupo consegue produzir até 2.500 litros por hectar de terra e conta com 120 pessoas trabalhando no projeto. O resultado do trabalho é vendido no mercado, mais barato que a gasolina comum. Aos críticose, eles avisam que não pararam de produzir comida para para produzir biocombústivel.

Nada disso é novo e podemos encontrar muitos exemplos no Brasil e mundo afora. O que chama a atenção e faz a gente parar para pensar é que essas pessoas vivem no meio do mato, longe de qualquer cidade desenvolvida e sem o mínimo dos recursos com os quais o contamos em um país como o Brasil, por exemplo. Apesar de tudo, não se fizeram de vítima, pelo contrário, desenvolveram soluções simples, porém eficazes para lutar contra as mudanças climáticas e suas consequências. Um exemplo para o homem da cidade grande que, na ânsia de justificar o desperdício e a falta de preocupação com o planeta, se apóia na “falta de informação” ou no “não sei exatamente o que fazer” para continuar poluindo e entupindo o planeta de lixo.


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