Auto-estima

26 04 2008

Acabo de ler um artigo na BBC Brasil sobre a ausência de diversidade racial na SP Fashion Week, a maior semana de moda do Brasil e uma das mais “bam-bam-bam” do mundo. Nossas revistas femininas nunca refletiram a diversidade racial de nosso país. A TV idem. E nossa mais prestigiada semana de moda foi pelo mesmo caminho. Perdemos, mais uma vez, a chance de mostrar nossa cara para o mundo, de exportar a imagem da moda atrelada a imagem da verdadeira população de homens e mulheres negros e mestiços (todas as mestiçagens, indígena, japonesa, negra, branca etc.) desse país. De encher páginas de revistas gringas com cores e tonalidades tipicamente brasileiras. De novo recorremos a nossa falta de auto-estima para exportar um Brasil fake.

Quem lê as edições nacionais de “Elle”, “Marie Claire”, “Estilo” entre outras, simplesmente não encontra o Brasil nessas revistas. Modelos de 1m80 de altura, brancas, cabelos lisos e olhos claros, é só que vemos, como se fôssemos a Suíça ou a França e nossas mulheres fossem todas alvas ou usassem batom rosa. Na TV até bem pouco tempo negro ou era doméstico ou figurante de cadeia em novela, com raríssimas exceções. Foram poucos os que ousaram quebrar paradigmas, como a TV Manchete com “Xica da Silva”. Nossas revistas refletem um mundo que não é o nosso, uma população que não passa nem perto do que somos. Mesmo assim continuamos a comprar tais revistas e assistir a canais que não previlegiam nossa diversidade racial. Por que? Por que fazemos tanto esforço para esconder o que somos? Um problema de auto-estima, talvez. De auto-estima do negro, do mestiço, que não é aceito e por vezes não se aceita como é. De auto-estima do branco, dos fashionistas de plantão, que precisam se apoiar em padrões estéticos além-mar para convencer a si mesmos de que seus trabalhos são bons o bastante para serem considerados “quase europeu, coisa fina”. Questão de aceitação. Em ambos os casos, as raízes da inferiodade foram solidamente nutridas durante o período colonial.

No Brasil, se eu quiser saber como me maquiar tenho de comprar revista segmentada, voltada para negros. Se eu quiser ler uma feminina, tenho de me contentar e aceitar que batom roxo e blush rosa bebê nada têm a ver comigo, fechar a revista e me sentir frustrada por que a cor da sombra escolhida pelo editor de moda não pega bem para meus olhos não-azuis. Conselho de beleza? Peles brancas. Quer um olho de gata arrasador? Sem chance com esse olhinho marrom que a natureza te deu. Se não for azul ou verde, a maquiagem não serve.

Ironias a parte, por que será que tentamos tanto imitar os europeus no que diz respeito a beleza e moda? E por favor não me venham com respostas como “Por que a moda vem de lá pra cá e a Europa é sempre tendência”. Não precisa chover no molhado. Eu vivo na Europa e acredito 100% que o Brasil pode exportar moda (como já vem fazendo), fazer sua própria moda, até por que aqui o padrão ‘etnico-cultural-social’ é muito diferente do nosso. Eu sou a favor de que se copiem os bons exemplos, mas até a nossa diversidade racial querem falsificar. Quem vê o Brasil daqui da Europa pela imprensa feminina local ou pelos desfiles de moda nem imagina o quão rica, exótica e esplendidamente misturada é a nossa população.

‘O quê, não tem mercado para modelos negros?’ Que papo mais furado. Quem faz o mercado são vocês, editores de revistas, são os estilistas que escolhem as modelos para seus desfiles, são as agências de publicidade que montam as peças publicitárias, são os produtores de elenco de TV e por fim, é o povo que consome o produto final das vossas criações. Isso é o mercado, é cada um de nós juntos, cada qual com seu papel, sendo ao mesmo tempo representante e representado.

Daqui a pouco vem alguém dizer: “Ah, mas as coisas estão mudando”.

Uma pergunta: por que, sendo o país mais mestiço do mundo, nossas famosas e bem faladas top models são todas brancas? Só para citar algumas como Alessandra Ambrósio, Adriana Lima (que é  mulata, mas é vista como branca por que tem olhos verdes e cabelos lisos/encaracolados, pele clarinha, beleza diferente, porém próxima da beleza caucasiana), Ana Beatriz Barros, Ana Cláudia Mitchels, Isabelli Fontana, Fernanda Tavares, Mariana Weickert e por aí vai. Será que não existem negras e mestiças, indígenas e japonesas lindas no Brasil? A mundialmente famosa e cantada beleza da mulher brasileira só encontra pares entre as mulheres brancas de nosso país?

Quizz

Alguém aí tem o nome de uma top model brasileira negra ou mestiça (vale qualquer mestiçagem: japonesa, índia etc.) estampando a capa das versões tupiniquim de “Vogue”, “Elle”, “Nova” (Cosmopolitan) e outras?

Qual a top model brazuca negra, mestiça ou índigena que fez sucesso lá fora, voltou e virou atriz de novela das oito da Globo?

Bom, eu tenho estado fora fo Brasil há algum tempo, mas talvez vocês possam dizer quando foi a última edição da “Playboy” ou da “Claudia” com mulheres não-brancas na capa? Favor não citar as bronzeadinhas da “Playboy” como exemplo…

Somos provavelmente o país com a maior população negra do mundo fora da África, mas as pessoas só ficam sabendo disso no ‘Google’. A contar pelo que vemos nas revistas e na TV, no Brasil as mulheres, em geral, se parecem com Letícia Birkheuer ou Carolina Dieckmann. E também não adianta vir com coisas do tipo: “Ah, a Marie Claire já colocou negro na capa sim”. Sim, colocoram, numa edição comemorativa no ano 2000. É sempre assim: ou é edição comemorativa ou é matéria sobre negro. Por que não publicar negros e outras etnias em páginas de revista apenas por serem bonitos ou bons modelos?

Sinceramente, tem dias que mesmo vivendo em um país tão diferente do nosso (Suíça), eu me sinto mais valorizada. Aqui as pessoas adoram meu cabelo louco, pra cima, crespo. No Brasil é uma pressão pra gente alisar o cabelo, uma febre de chapinha que Deus me livre. Aqui as pessoas gostam de coisas mais autênticas, valorizam belezas exóticas e diferentes.

Blond girl

Temos uma legião de mulheres com feições nordestinas e nortistas, biotipo extremamente diferente do caucasiano blond. Mas para sair com o jogador de futebol, para conseguir um teste na novelinha das sete ou para receber uma ligação da Playboy, precisam ‘estar’ loiras. Para rebolar a bundinha precisa virar loira. E tão logo a fulana consiga uma certa exposião, pimba! Logo aparece loira! É um culto rídiculo e doentio de um padrão de beleza longe do nosso. Aliás, ser loira no Brasil virou estilo de vida. Não basta pintar o cabelo, precisa viver o jeito loira de ser, a saber: usar pouca ou quase nenhuma roupa, posar nua, namorar uma pseudo-celebridade, conseguir uma ponta no Zorra Total (ou numa novela das sete, se tiver sorte), ou entrar para o BBB; sair na revista Caras em manchetes como “A loira fulana de tal na Ilha de Caras”.

Sim, alguns de nós somos loiras e loiros no Sul. Somos negros na Bahia. Somos índigenas no Amazonas. Somos mestiços nos cantões do Brasil, um mosaico de etnias em São Paulo. Tudo isso compõe o Brasil. Brasil esse que o mundo ‘fachion’ não aceita, por que ser europeu é mais legal, mais cool, mais in. No cool dessa gente! Me pergunto qual é o Brasil que o europeu daqui que vê a SP Fashion Week pela TV e internet conhece? E quando ele viaja ao Brasil, como é, para ele, o choque dos Brasis? o Brasil real com o Brasil fake? Esse complexo de inferioridade é nosso, exclusivamente nosso. Aqui na Europa as pessoas acham o máximo a diversidade cultural e étnica do Brasil. Nosso país é in aqui. Nós é que ainda não perdemos a mania de se rebaixar.

Não fica difícil entender porque muitos acreditam que o brasileiro desvaloriza a própria imagem.

Vá nesse link olhe as fotos e me responda: pelas fotos, ambiente e perfil dos modelos, você imaginaria que se trata de uma semana de moda no Brasil se ninguém te falasse?


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10 responses

29 04 2008
Verônica

Concordo com vc em muitas partes. Nunca vivi muito tempo fora, mas quando fui para Cabo Verde (África)senti a diferença. Não era anormal ver negros em campanhas ou dirigindo carrões. Eu era normal!!! Cabelo então é um dilêma para mim, morro de vontade de ficar sempre de tranças, e lá trança era para jones, alisamento para mulheres maduras. Aqui ás vezes parece haver indiferença velada. Que reflete no lado econômico com a maioria de negros pobres, podem falar o que for mais é sim, só querem defender o quinhão deles sem as cotas. Bom cada um defense o seu e em debate e conversas, quem sabe um dia melhore as coisas, mas temos que ler mais sobre isso e aceitar a nós mesmo( o que não é pouco). Isso me deu vontade de morar aí, embora agora não seja minha realidade.
bom post.
Boa semana!!

14 05 2008
Marta

Oi, Ana Paula. Tudo bem?
Descobri seu blog agorinha e achei muito importante esse seu desabafo.
Também sou jornalista e, assim como você, me revolto com essas coisas que acontecem no Brasil. Por isso, criei um site feminino chamado Camaleoa, que questiona a maneira como pensamos e consumimos. Ainda está bem no comecinho, dê sua opinião se quiser.
Um beijo e parabéns pelo blog!
Marta

18 05 2008
Silvana

Olá Ana, sempre acompanho seu blog ( desde o antigo ), e sempre gostei de seus post.
Porém tenho de descordar do tópico onde critica sobre o perfil das modelos brasileiras, o Brasil é um país com uma história de colonização muito diversa e concordo com a pouca opção em modelos ref. ao biotipo, mas aí limitar dizendo que não é valorizar nossa gente acho errado o País mais que nunca reflete a realidade, afinal o Brasil é composto como esse reflexo: 15,72% origem italiana, 14,50% portuguesa, 6,42% espanhola, 5,51% alemã e 12,32% outras origens, que incluem africana, indígena, judaica e árabe.
Como pode verificar a MAIORIA é colonização européia, na minha opinião o Brasil é diversidade, essa é a história do Brasil….
Acho sim que tem muita crítica em cima disso, assim como a história das cotas em universidades, onde é absurdamente ridículo, sendo que como disse na região sul tem loiros e loiras na mesma condição do negro e não tem cota garantida.
Bom essa é minha manifestação.
ABraço…

18 05 2008
Silvana

Olá Ana, sempre acompanho seu blog ( desde o antigo ), e sempre gostei de seus post.
Porém tenho de descordar do tópico onde critica sobre o perfil das modelos brasileiras, o Brasil é um país com uma história de colonização muito diversa e concordo com a pouca opção em modelos ref. ao biotipo, mas aí limitar dizendo que não é valorizar nossa gente acho errado o País mais que nunca reflete a realidade, afinal o Brasil é composto como esse reflexo: 15,72% origem italiana, 14,50% portuguesa, 6,42% espanhola, 5,51% alemã e 12,32% outras origens, que incluem africana, indígena, judaica e árabe.
Como pode verificar a MAIORIA é colonização européia, na minha opinião o Brasil é diversidade, essa é a história do Brasil….
Acho sim que tem muita crítica em cima disso, assim como a história das cotas em universidades, onde é absurdamente ridículo, sendo que como disse na região sul tem loiros e loiras na mesma condição do negro e não tem cota garantida.
Bom essa é minha manifestação.
ABraço…

20 05 2008
anapaula08

Tudo bem?

Obrigada por ler e comentar. Eu discordo dos números que você apresentou, é quase impossível pra mim encontrar veracidade no fato de que em 12,32% de nossa população encontram-se ‘outras origens’ inclua-se aí a raça negra. O próprio IBGE já falou que a população negra do Brasil É MUITO MAIOR DO QUE OS DADOS OFICIAIS, uma vez que os próprios negros e mestiços, na hora de responderem ao Censo, usam os mais variados termos para falarem de sua raça, mas QUASE NUNCA USAM A SENTENçA “EU SOU NEGRO”. O IBGE, no Censo realizado no início dos anos 2000, catalogou mais de 70 expressões usadas por negros e mestiços para se referirem a própria raça e cor. São termos como “moreno café com leite”, “moreno jambo”, “chocolate”, “cor de canela”, “queimadinho de sol”!!! etc. etc. Isso soa hilário, mas é a realidade do nosso país. E os pesquisadores do Censo não podem interferir na resposta, eles devem escrever o que o entrevistado fala. É por isso que eu falei de aceitação e inferioridade. Enquanto nós, brasileiros, não aceitarmos o que somos (um povo mestiço e diverso, SRD – sem raça definida) vamos continuar mostrando ao mundo um Brasil bem diferente do Brasil real.
Eu concordo com você que nossa origem é Européia, claro que sim. Mas metade de nós tem sangue africano. É só andar nas ruas e olhar as pessoas que passam. Eu tenho amigos no Brasil que têm a pele clarinha, nariz de batata, boca grande…. e se definem “caucasiano” no Orkut. Se vierem aqui para a Suíça JAMAIS SERÃO VISTOS COMO CAUCASIANOS. O Brasileiro não entende a definição de raça e etnia, continua pensando que raça é cor de pele.

Aquele artigo da BBC que eu citei (espero que você tenha clicado no link) é só um exemplo de como as pessoas na Europa ficam chocadas quando vão ao Brasil. A BBC é um exemplo, já vi muitos outros veículos daqui falarem a mesma coisa: que o brasileiro se esconde! Pelo que divulgamos do nosso país, muita gente pensa que no Brasil as mulheres tem cabelo liso, e só as “exóticas” tem cabelo pixaim, elas têm olhos verdes ou claros e aquela pele morena é bronzeada do sol brasileiro… é triste!

Quando eu falo que há poucos negros em posições de destaque, é um exemplo. No meu texto eu falo também dos índigenas e das outras minorias que compõem a população brasileira, tão diversa e mestiça (sim, mestiça, caucasiano no Brasil? Pouquíssimos). O que vemos é a apologia de um padrão de beleza que é minoria: o da raça caucasiana, mulheres altas, brancas, olhos claros e cabelos lisos. Você realmente concorda que esse tipo é o tipo brasileiro? E, conforme se questiona a BBC, pq sendo o país mais mestiço do mundo nossas top models são TODAS BRANCAS, A MAIORIA DE OLHOS CLAROS? Cadê a mulher e o homem mestiços, com nariz grande e rosto fino evidenciando a mistura das raças? Cadê a mulher de olhos orientais e pele morena? Cadê a índigena de cabelo liso e nariz empinado? Enfim, cadê o Brasil?

O legal do Brasil é isso: eu moro na Suíça e aqui já me atribuíram diferentes origens. Eu tenho cabelo pixaim (e adoro), lábios grossos de negão e sou mulata, mas tenho nariz empinado e rosto afinado, coisa que o negro puro não tem. Eu sou absolutamente ‘misturada’ como diz minha mãe. Sempre me perguntam se sou árabe (por causa dos olhos curvados), se sou indiana (por causa de um sinal no meio dos olhos), se sou etíope, se sou latina etc. Eu digo sempre: sou tudo isso, sou brasileira.

Tenha um ótimo domingo, espero que a gente continue trocando idéias.
abraços.

24 09 2008
Luca

Adriana Lima branca?? Você não quis dizer Fernanda Lima? Fernanda Lima é branca, mas a adriana lima é mulata clara (c/ olho verde é verdade, mas ainda assim…) e vc não citou a Caroline ribeiro e a Raica que são de origens indigena. Mas eu concordo que a mulher com traços europeus ainda é vista como padrão por sermos um país que foi uma colônia européia e ainda usa um padrão de beleza bem “ocidental” imitando Europeus e Norte Americanos. Isso pode mudar, mas vai ser preciso batalhar e vai exigir uma mudança e mentalidade que pode levar gerações…

24 09 2008
Luca

Mas sobretudo é necessário que mude a opinião dos editores de moda e que o povo (principalmente o negro e mestiço) comece a se exigir mais nas revistas e rv. A presença da Adriana Lima (que é mulata clara, não branca) e da Caroline ribeiro (amazonense/indígena) já são o resultado dum avanço de mentalidade, mas ainda falta bem mais claro… acho q como os europeus tem fama de preconceituosos, os estilistas brasileiros preferem escalar modelos com traçoes europeus por acharem que vão ser melhor aceitos por eles (europeus).

25 06 2009
thayza

eu acho que o google demora muito pla pesquisa trabalhos

1 10 2009
pedro

O TEMPO É O PAI DE TODA A COR”

como á dia tambem á noite
como á o calor tambem á frio

* o mundo está completo*
existem
varios grupos raciais de pele preta e branca
até as asiaticas tem a pele branca.
O chamado caucasiano
é uma pessoa normalmente
com a imagem tipica
do nativo europeu
mas seus olhos
e os cabelos são escuros…
normalmente
essas comunidades surgiram no mundo
entre africa
e o continente europeu.
O caucasiano como o indiano etc…
são descendentes
do Amor entre os dois povos
que são os arianos
legitimos nativos europeus
com a grandiosa AFRICA
normalmente o ariano tem o nariz fino
para controlar a inalação do frio e seu cabelo é liso
o africano é o contrario
tem o nariz dilatado derivado ao calor
e os cabelos são ondulados
o caucasiano
pode ter a pele mais branca
ou mais escura ter o nariz mais fino ou não
ou ter o cabelo
mais encaracolado ou liso.
ATENÇÃO
se alguem não quizer aceitar esta explicação bem simples
vão ao google earth
e vejam onde fica jerusalem…
dai parte
todos os credos e os cruzamentos do mundo inteiro

O AMOR VENCE O MUNDO

20 01 2011
tony

Os americanos adoram mulheres afrodescendentes de pele clara, olhos claros e traços europeus.

Vide Adriana Lima (brasileira) e algumas atrizes norteamericanas tipo aquela vilã da série Uggly Betty, chamada Wilhelmina Slater entre outras.

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